Na reunião pública da Câmara Municipal de Lisboa de dia 5 de fevereiro de 2025, a vereadora Patrícia Gonçalves do LIVRE apresentou um voto de pesar pelo falecimento de Maria Teresa Horta, aprovado por unanimidade.
VOTO DE PESAR
PELO FALECIMENTO DE MARIA TERESA HORTA
“(…) só os poemas darão conta
da minha avidez
da minha passagem
Da minha limpidez
sem vassalagem”
Maria Teresa Horta deixou-nos. Estamos mais sós. Todas as mulheres portuguesas estão mais sós. A literatura, a cultura e a liberdade deste país estão mais sós. Ver partir alguém que incondicionalmente defendeu a condição feminina, que insubmissamente lutou pelo direito à criação, que inabalavelmente se afirmou como umas vozes mais livres na escrita nacional, impõe-nos um momento de reflexão e de deferência perante o fulgor extraordinário da sua obra e da sua vida.
Por isso é com profundo pesar que redigimos este voto, evocando a memória da poeta, da escritora, da jornalista, da ativista, da política, mas antes de tudo, da mulher que Maria Teresa Horta foi até ao fim dos seus dias.
Nascida há 87 anos em Lisboa, frequentou a Faculdade de Letras, inaugurando o seu trabalho poético em 1960, com Espelho Inicial. Logo no ano seguinte, participou com Tatuagem em Poesia 61, e deste então, traça um percurso literário insaciável e de enorme profusão que abrange a poesia, o romance, os contos, as crónicas.
Claro que o seu trajeto é marcado por uma obra incontornável do pensamento feminista nacional – Novas Cartas Portuguesas – nascida de um gesto literário contra a mentalidade do Estado Novo, assumido em conjunto com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, tendo o grupo ficado conhecido como as Três Marias. Por esta ousadia, foi processada e julgada em 1972, ao lado das suas parceiras de luta.
A sua obra poética foi coligida em Poesia Reunida (2009), tendo publicado posteriormente Poemas para Leonor (2012), A Dama e o Unicórnio (2013), Anunciações (2016), Poesis (2017), Estranhezas (2018) e a antologia pessoal Eu Sou a Minha Poesia (2019).
Na ficção, assinou obras como Ambas as Mãos sobre o Corpo (1970), Ana (1974), Ema (1984), Cristina (1985), A Paixão segundo Constança H. (1994) e As Luzes de Leonor (2011), romance sobre a Marquesa de Alorna, que se encontrava entre os seus antepassados.
O caminho de escrita foi sempre pautado pelo trabalho jornalístico em periódicos como Diário de Notícias, Diário de Lisboa, A Capital, na qual dirigiu o suplemento Literatura e Arte, República, O Século e Jornal de Letras e Artes, tendo também sido chefe de redação da revista Mulheres a convite do Partido Comunista Português.
Com uma carreira largamente reconhecida através de diversos prémios e distinções, tendo ainda assim recusado ou colocado as suas condições para aceitar alguns destes, em 2004 foi agraciada com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e em 2022, com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade.
Assim, a Vereadora do LIVRE propõe que a Câmara Municipal de Lisboa, reunida em sessão 5 de fevereiro de 2025, delibere:
1 – Manifestar o seu profundo pesar pelo falecimento de Maria Teresa Horta, expressando à sua família e amigos as mais sentidas condolências;
2 – Organizar um momento de homenagem no sentido de evocar a sua memória, reconhecer o seu percurso e celebrar a sua obra;
3 – Remeter o presente voto de pesar à sua família e à editora Dom Quixote.
Lisboa, 5 de fevereiro de 2025
A VEREADORA
Patrícia Gonçalves